O setor automotivo brasileiro vive uma fase de transformação histórica impulsionada pela transição para veículos elétricos. Com o apoio de avanços tecnológicos, políticas públicas e o engajamento de montadoras e startups, o país se posiciona de forma mais competitiva diante de um desafio global: a sustentabilidade no transporte.
Em 2024, o Brasil registrou a venda de 177.358 veículos eletrificados, um salto de 89% em relação ao ano anterior. As projeções indicam que, se mantido o ritmo, poderemos ultrapassar 335 mil unidades BEV e PHEV em circulação já em 2025. Esses números não representam apenas estatísticas, mas um verdadeiro movimento de inovação e responsabilidade socioambiental.
A mobilidade elétrica não é uma novidade recente. No início do século XX, já existiam protótipos de automóveis elétricos. No entanto, a evolução tecnológica das baterias e a disponibilidade de combustíveis fósseis baratearam os motores a combustão por décadas. Foi somente a partir dos anos 2000, com a crise climática e avanços na densidade energética das baterias, que o setor retomou o interesse em elétricos.
No Brasil, os primeiros modelos híbridos entraram no mercado no final da década passada. A partir de 2018, intensificou-se o lançamento de versões híbridas e elétricas de fabricantes globais. Em 2021, o país foi oficialmente integrado ao movimento de eletrificação em massa, com incentivos iniciais e a chegada de players como Tesla e BYD. Desde então, a trajetória acelerou, refletindo a preocupação ambiental e as oportunidades de investimento.
O ano de 2024 ficará marcado pela consolidação da eletrificação no mercado nacional. As vendas de veículos eletrificados alcançaram 177.358 unidades, quase o dobro do registrado em 2023. A participação dos BEV (100% elétricos) e PHEV (híbridos plug-in) chegou a 2,5% de todo o mercado de veículos leves.
Com base nos dados atuais, a projeção otimista de 335 mil unidades em circulação para 2025 reforça a tendência irreversível da eletrificação. Se confirmados esses números, o Brasil estará muito próximo do ponto de inflexão global, quando as vendas de elétricos atingem 5% do mercado.
O setor de eletromobilidade no Brasil movimentou cerca de R$ 594,3 bilhões em faturamento anual. Deste montante, R$ 445,9 bilhões foram destinados à infraestrutura de recarga e R$ 85,4 bilhões à produção de componentes, incluindo baterias. Montadoras como BYD, GM e Stellantis, além de startups nacionais, já investiram mais de R$ 1 bilhão cada em projetos de eletrificação.
Para 2025, são esperados novos aportes que ultrapassarão R$ 6 bilhões, incluindo recursos de empresas estrangeiras e fundos de investimento. Esses valores vão direcionar desde a construção de estações de carregamento até a pesquisa em materiais para baterias mais eficientes e menos custosas.
A expansão da rede de pontos de recarga é um dos pilares para o crescimento da mobilidade elétrica. No Brasil, parcerias entre governo, montadoras e startups têm acelerado a instalação de estações em áreas urbanas e rodovias, com foco em evitar o “receio de autonomia” por parte dos consumidores.
Globalmente, a China lidera a implantação de carregadores, com quase 12 milhões de estações até outubro de 2024. No Brasil, a interoperabilidade e o roaming entre redes de recarga ganham atenção, permitindo que usuários de diferentes operadoras recarreguem seus veículos em qualquer ponto.
Além disso, a próxima geração de baterias promete transformar o cenário. As novas baterias com maior densidade energética e custo reduzido podem tornar os veículos elétricos mais acessíveis, além de diminuir o tempo de recarga, aproximando a experiência dos elétricos à conveniência dos automóveis a gasolina.
O Programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) substituiu o antigo Rota 2030 e trouxe mudanças significativas. Com foco no aumento da produção nacional de veículos elétricos e híbridos, esse programa oferece Programa MOVER de incentivos fiscais para fabricantes e fornecedores de componentes.
Adicionalmente, foram criados mecanismos de fomento à pesquisa e à inovação, privilegiando empresas que desenvolvem soluções de software para gestão de frotas elétricas, sistemas de carregamento inteligente e materiais sustentáveis. Os benefícios fiscais incluem isenção ou redução de IPI, ICMS e outros tributos.
A eletrificação do transporte abre portas para novas tecnologias e modelos de negócio. Além das montadoras tradicionais, startups brasileiras ganham espaço ao oferecer serviços de recarga rápida, gestão de energia e conversão de frotas corporativas.
O setor também se mostra promissor na geração de empregos qualificados. Desde engenheiros especializados em baterias até técnicos em manutenção de sistemas elétricos, a demanda por profissionais com competências em elétrica, TI e sustentabilidade cresce de forma acelerada.
Exemplos internacionais, como Portugal, demonstram como a digitalização da cadeia produtiva e investimentos em pesquisa elevam a competitividade. No Brasil, universidades e centros de pesquisa começam a se conectar de forma mais efetiva com a indústria automotiva, fomentando a economia do conhecimento.
A transição para veículos elétricos desempenha um papel fundamental na redução das emissões de gases de efeito estufa. Estima-se que cada veículo elétrico em circulação possa reduzir em média 1,5 tonelada de CO2 por ano, quando comparado a um carro a combustão média.
Ao favorecer fontes de energia limpa, como hidrelétricas, eólicas e solares, o Brasil pode maximizar os benefícios ambientais dos elétricos. A matriz energética brasileira, uma das mais renováveis do mundo, torna a adoção desses veículos ainda mais vantajosa do ponto de vista climático e estratégico.
Além disso, a redução das emissões de CO2 contribui para a qualidade do ar nas grandes cidades, diminuição de ruídos e menor dependência do petróleo, alinhando-se aos compromissos internacionais de descarbonização e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Apesar dos avanços, alguns desafios ainda precisam ser superados para consolidar a mobilidade elétrica no país. Entre eles, destacam-se:
O caminho à frente exige colaboração entre setor público e privado, investimentos em capacitação técnica e adaptação da rede elétrica. Projetos de pesquisa em segunda vida para baterias e reciclagem de materiais também serão fundamentais para minimizar impactos e custos.
Em suma, o investimento em mobilidade elétrica é uma oportunidade única para o Brasil unir sustentabilidade, inovação e desenvolvimento econômico. Com o engajamento de todos os elos da cadeia, o país pode não apenas cumprir metas ambientais, mas também tornar-se uma referência global em transporte limpo e inteligente.
Referências